A cidade está coberta de neve, as luzes enfeitam as praças, ruas, casas e prédios, propiciando um clima mágico. Em seus lares, famílias estão reunidas próximas à árvore de Natal, em um clima de confraternização, enquanto o fogo arde calmamente na lareira. Quando o sino bate meia-noite, todos desejam feliz natal uns aos outros e sentam-se à mesa para comer o banquete natalino. Depois que todos estão empanturrados, vão se deitar, deixando meias limpas penduradas, na expectativa da chegada do Papai-noel, que não virá enquanto eles não dormirem. Ao acordarem, na manhã de Natal, as crianças são as primeiras a correrem para a sala. Há um monte de presentes deixados embaixo da árvore, que elas abrem rapidamente. É exatamente aquilo que elas pediram ao Papai-noel. É um belo cenário. Uma fantasia, de origem pagã com algumas variantes, tipicamente européia, que o Brasil adotou na maior parte inclusive as práticas. Apesar que aqui no Brasil não existe neve (exceto no Sul, às vezes), renas e nem trenó.
O antigo deus Mitra, uma das representações do deus Sol, (equivalente a Rá, do Egito) era bastante apreciado pelos romanos. O mitraísmo era uma religião com rituais iniciáticos secretos semelhantes aos da Maçonaria dos dias de hoje, onde apenas homens participavam. Aureliano, imperador de Roma, estabeleceu no ano de 273 da era cristã, o dia do nascimento do nascimento do Sol em 25 de dezembro, sendo esta data o Natalis Solis Invcti, ou Nascimento do Sol Invencível (ou Invicto). Esta data foi adotada em todo o império romano, que passou a comemorar o nascimento do Mitra-menino, que era o deus indo-persa da Luz, que também foi visitado por magos que lhe ofereceram mirra, incenso e ouro. A noite do Natalis também era a do início do Solstício de Inverno, segundo o Calendário Juliano, que seguia a Saturnalia, festa em homenagem a Saturno. Assim era comemorado o dia mais curto do ano no Hemisfério Norte e o nascimento de um Novo Sol, ou Mitra, Baal, Apolo e outros deuses, todos estes adorados pelos romanos.
Nem mesmo o advento do cristianismo como religião oficial do Império Romano por decreto do imperador Dionísio no século III conseguiu abolir as antigas práticas de se celebrar o Natalis e seus símbolos, como a árvore e os enfeites. Como ele mesmo fora um seguidor do Sol, transformou o 25 de dezembro em uma data cristã, substituindo o nascimento do Sol pelo de Jesus Cristo. Com isso, crenças, rituais e costumes pagãos tornam-se patrimônio do cristianismo, assim como deuses locais tornam-se santos, virgens em anjos e santuários destinados aos cultos a estes tornam-se igrejas. Já os povos cristãos do Oriente transferiram o Natalis para o dia 6 de janeiro, pois este foi o dia do aparecimento de Osíris para os egípcios e de Dionísio para os gregos, mais uma reminiscência pagã. Voltando ao mitraísmo, o próprio Jesus do Natal foi paganizado pela Igreja Católica, pelo fato do culto ter se mantido intacto; Jesus substituiu Mitra como "Filho do Sol", e as 12 constelações foram substituídas pelos 12 apóstolos. A estrela de Belém é a conjunção de Júpiter com Saturno na constelação do ano 7 a.C. Também no Antigo Egito, existia o culto à "mãe virgem", em que o filho da deusa Ísis (Rainha dos Céus), engravidada de forma sobrenatural, nasce precisamente no dia 25 de dezembro. Uma imagem do arquétipo primordial "mãe", que existe desde o começo da humanidade, enquanto Jesus é o arquétipo "herói", que nasce de forma sobrenatural, cumpre o mandato do "pai" (outro arquétipo) e morre pouco tempo depois, igual inúmeros outros deuses e semi-deuses pagãos de todas as épocas.
| Nicolau de Mira, o papai-noel |
Com o passar do tempo todos os antigos deuses natalinos foram esquecidos ou substituídos por santos católicos, em parte graças à violenta repressão política e armada dos cristãos. Ainda no século III da nossa era nasce na Ásia Menor, Nicolau de Bari ou Nicolau de Mira, tido como santo em alguns países por supostamente fazer milagres e dar esmolas, presentes e assistência aos pobres, principalmente as crianças carentes, inclusive nos pesados invernos que atingiam a região. Também é conhecido por sair na porrada (literalmente) com outros dentro da própria igreja para defender a sua fé cristã. Diversas lendas giram em torno de sua pessoa, como a de converter hereges, transformar hóstia em pão e até mesmo de ressucitar crianças mortas. Virou padroeiro de muita coisa, inclusive dos estudantes, sendo a ele prestados cultos e celebrações no mundo inteiro. Provavelmente é dele que vem a figura do papai-noel, o bom e calmo velhinho de barbas brancas que presenteia crianças no Natalis, ou Natal como é chamado aqui no Brasil, que foi popularizado pela Coca-cola - que inventou a sua clássica roupa vermelha. Mas ainda assim muito menor que o verdadeiro Nicolau de Mira, que até hoje nos dá a sua lição de caridade e serenidade.
Apesar de pouco ter de realmente cristã (aliás, tudo que é cristão tem origem pagã) na sua forma e origem, a festa do Natal é uma importante tradição dos povos ocidentais, e uma data que normalmente se usa para refletir valores pessoais e sociais. À parte do consumismo exacerbado e excessos de nossa época - influência clara do agressivo sistema monetário, algo que certamente entrará também para os livros de história no futuro quando este sistema tiver desaparecido -, realmente existe de algo de mágico e muito antigo no Natal, tão antigo quanto a nossa própria História. Muito maior que a hipocrisia de se achar que o "natal é tempo de amor", quando o amor e respeito pelo próximo deveria ser exercitado o ano inteiro, e as pessoas, não deveriam se lembrar dos mais necessitados apenas nesta época, pois Nicolau de Mira se lembrou das crianças por toda sua vida, pavimentando um futuro melhor para elas. Quem dera toda a humanidade pudesse agir assim também.

1 comentários:
"Tudo que é cristão, é pagão" Adorei essa frase
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